25.6.11

Sombras sobre O Vale

O sol raiava, majestoso e imponente uma vez mais, sua luz iluminava com perfeição os floridos campos e montanhas do lugar, sua ausência também causava uma beleza, não inferior, pelo contrário, até as sombras que sua pura luz formavam eram das mais perfeitas, o mesmo moldava sobre a grama uma silhueta gigantesca, humanóide, ao mesmo tempo inumana, um gigante de pedra caminhava dentre os campos floridos, o barulho de seus passos ecoavam dentre o vale onde habitava, sua prisão, ele então olhara para o céu, logo voltou seus olhos para os campos floridos, que pareciam excepcionalmente bonitos agora, ele aproximava sua mão gigantesca das flores, tentando pegar ao menos uma, em vão, seus dedos eram grandes a ponto de apenas criarem enormes buracos no chão, sua pele, que mais parecia pedra, coberta por plantas e musgo, seu rosto era o de uma estátua, uma máscara de pedra, sem expressão, apenas por dentro era possível saber a dor que sentia por falta de sua amada, seu reino não era distante, mas eram poucas as vezes que ela conseguia ir vê-lo.

Na mesma tarde, ele conseguiu vê-la, tão pequena e frágil, mesmo assim, tão corajosa, não se sentia nem um pouco amedrontada por sua gigantesca presença, ele diversas vezes levantou-a o máximo que conseguia, ela adorava a visão de lá de cima, sempre na despedida, a mesma coisa, ela olhava-o tão grande, tão triste, sentia falta de tê-lo novamente pequeno, grande para ela, mas pequeno o suficiente para abraçá-la e acolhê-la em seus braços, seus longos cabelos caindo sobre seus ombros, seus olhos tranquilos transmitiam toda a segurança que ela precisava, por ter de protegê-la se transformara naquilo, mesmo assim não sentia nenhum ressentimento, seu amor apenas crescera, assim como seu grande coração, ambos sonhavam com algum dia ele retornar à si, a cada mudança de comportamento dela ele sentia-se ainda mais impotente, ele não podia estar ao lado dela para tudo, não mais, queria ao menos mais uma vez poder segurar em suas mãos, e ter como dizer o quanto a amava, um amor tão puro que não parava de crescer, ela era sua musa, não ousaria arriscar sua vida novamente para salvá-la, jamais.

Certo dia, o gigante notou a demora para sua musa aparecer, mas não ousou nem uma vez pensar que ela não viria, ele ficou em pé em frente ao arco que separava o vale dos campos que, após um longo caminho, levaria ao reino da jovem.

Anos se passaram, o musgo já havia coberto o gigante por completo, seus olhos de pedra continuavam vivos, e escorriam um líquido claro, esse mesmo líquido acabou por criar uma lagoa ao seu redor, suas lágrimas trouxeram de volta a vida ao vale, que antes só tinham poucas flores, agora cresciam árvores, finalmente cansado após aguardar tantos anos, o gigante correu enfurecido em direção ao castelo, ela poderia ter arrumado alguém melhor, ele pensava, mas a simples idéia dela não ter nem ao menos lhe dito lhe enfurecia, ele não tinha muito a dar, e ela ganharia muito por não estar com ele, ele dava patadas enfurecidas em frente ao castelo, um rugido saia de sua boca de pedra, que nem ao menos abrira para soltar tamanho estrondo, todos do castelo apavoraram-se, tacaram-lhe flechas, pedras, mas nada penetrava a pele de pedra que ele tinha, já enfurecido, ele fechava o punho, desferindo um soco ao chão, que só parou ao notar que havia uma criança em baixo dele, ele deu passos para trás, e ficou amedrontado apenas pela idéia de machucar uma criança, "Por favor, pare! Meu papai mora lá." O garoto disse, em lágrimas, o tão simples e corajoso ato do jovem foi o suficiente para fazer o gigante cair de joelhos, pela primeira vez, era capaz de ouvir-lo falando "Onde está ela? Onde está minha amada? Onde está a Princesa?" ele disse, o garoto se entristeceu ao ouvir sua pergunta, não soube responder.

Ao notarem que o Gigante não representava perigo, não demorou que os cidadões lhe dissessem do ocorrido.

"Lamento, a Princesa disse que estava cheia de lhe ver naquele estado, e ainda tão fiel, ela passou dias em claro, e tentou pactos para trá-lo de volta ao normal, mas nenhum deles deu certo, e aparentemente, tiraram sua vida, transformando-na numa estátua gigante, diferentemente de você, sem alma."

A notícia foi um choque para o Gigante, que se encaminhou para o lugar dito, encontrando finalmente sua amada, num estado tão deplorável quando o dele, tinha exatamente todos os aspectos dele, porém não se movia, era de fato uma estátua, novamente, lágrimas escorriam pelos olhos de pedra do gigante, maior que a sensação de ter perdido sua amada, era a alegria de saber que ela foi tão disposta de procurar uma solução em seu nome, assim como ele faria em seu nome.

Ciente de que não havia lugar para ele ao mundo, manteve-se em pé ao lado de sua amada, segurando sua mão, que finalmente cabia perfeitamente com a dela, e abraçou-a cuidadosamente, deitou-se a repousar naquela pose, para que os corpos de pedra simbolizassem eternamente o sentimento mútuo entre os dois, finalmente, suas lágrimas demonstravam alegria.

13.6.11

Bambuzal

Em certo ponto, certa época, havia um homem, em seus quarenta anos de idade, cabelos longos, que já iam perdendo a coloração, sobrando apenas a cor grisalha, sua barba exaltava sua experiência e vivência, Lembravam-no de uma época bem antiga, onde ele caminhava livremente pelas ruelas de seu vilarejo, brincando como toda criança comum, seu pai, deixou-lhe uma impressão marcante sobre os caminhos da Guerra, era um homem honrado e sério, sempre se mostrava triste ao ter de ir para uma batalha, mas não apenas por ter de deixar esposa e filho esperando por ele em casa, mas sim por lembrar que, entre os inimigos, também tinham familiares esperando por eles, que tudo aquilo podia ser resolvido por um argumento, porém nem ele mesmo era capaz de contestar as ordens da realeza, que pouco conhecera sobre os campos de guerra.

As cicatrizes profundas em sua face, uma cruzando-lhe o olho esquerdo lembrou-lhe o quão difícil foram os treinamentos, era jovem e inocente, nada sabia sobre a responsabilidade de tirar uma vida, estar em campo de batalha, lutar por ideais e brigas que nada lhe interessava, pensava nas batalhas como uma honrada batalha entre homens, mas não há glória nem honra entre homens que morrem sem razão, viu seus melhores amigos caírem um-a-um ao seu lado, as cicatrizes foram lhe mostrando o que seu pai havia vivido, e lembrava-no da responsabilidade de voltar para casa, a salvo para seus familiares.

As mãos, gastas e fracas, lembravam-no do quanto teve de trabalhar para manter sua família alimentada, horas e horas de trabalho no campo, por uma mixaria, quase lhe faziam desejar a vida de soldado, agora tinha filhos para criar, um menino, uma menina, com o passar dos anos, o menino se tornou um rapaz inteligente e sensível, muito diferente de seu pai cabeça-dura, a menina se tornara uma verdadeira princesa, certo príncipe lhe apareceu e mudou sua vida, do nada, sua companheira, de anos e anos, acabara por falecer de uma doença, o que fora de longe o impacto mais forte em sua vida.

Os pés, quanto andaram! andaram por ruelas, campos de batalha, plantações de arroz, e agora, trilhavam pela floresta, longe de tudo e de todos, o único som que ele ouvia eram os pássaros cantando, e o vento, que batia como um trovão em sua pequena casinha na floresta, por falta de companhia, o velho homem perdeu o dom da fala, mas do que lhe faria falta? nunca se arrependera de nada em sua vida, foi uma longa e árdua viagem, até aqui, nesse cantinho livre para a natureza.

O coração, sempre bateu forte, como estrondos, terremotos, após anos e anos de tanto errar e aprender, o coração não conseguiu manter a força, e parou de bater, aquele tolo e sábio homem, finalmente podia descansar.

"Errei, tentei, acertei, a vida foi difícil e confusa, mas foi muito divertida."